Enquanto abandono cresce, ONGs de Campo Grande resistem para que animais de rua tenham 2ª chance

Abandonados e deixados à própria sorte em ambientes hostis, animais em situação de rua enfrentam uma série de desafios, que perpassam desde a falta de abrigo e alimentação até a exposição a doenças e maus-tratos.

Neste 4 de abril, Dia Mundial dos Animais de Rua, o Jornal Midiamax narra histórias que reforçam a importância do trabalho desenvolvido pelas ONGs (Organização Não Governamental) de proteção animal de Campo Grande.

 

Entre janeiro e fevereiro deste ano, o CCZ (Centro de Controle de Zoonoses) resgatou 347 cães em situação de rua. Com mais animais entrando do que saindo dos abrigos, os dados expõem um problema latente: animais são considerados descartáveis enquanto o ciclo de violência e abandono se perpetua.

ONG Cão Feliz - Nathalia Alcântara
Animais em situação de rua (Nathalia Alcântara, Midiamax)

De 2019 a 2023, os casos de maus-tratos a animais que resultaram em morte dobraram em Campo Grande: em 2019, dos 209 registros, 17 terminaram em óbito. Já em 2023, entre 96 casos, 35 animais morreram na Capital, um aumento de 106%. Os dados são da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de MS).

Apesar do aumento dos casos com morte, por outro lado, o registro geral de maus-tratos na Capital caiu 45,96% nos últimos 4 anos. Em relação a flagrantes, somente no ano passado, a Decat (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Ambientais e de Atendimento ao Turista) realizou oito prisões pelo crime de maus-tratos.

 

O Artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais (9605/98) da Legislação Brasileira define maus-tratos aos animais domésticos como a prática de um ato de abuso, ferir ou mutilar animais, assim como a realização de experiências dolorosas em animais vivos para fins didáticos ou científicos.

Fabinho

Amicat's
Fabinho Amicat’s (Divulgação)

Com sarna, Fabinho foi espancado e jogado em um bueiro, à espera da morte. A história do gato Frajola poderia ser mais um entre os inúmeros casos de maus-tratos se seu caminho não tivesse cruzado com o da médica Ana Cristina de Castro. Seu resgate foi o pontapé inicial para que Ana fundasse a ONG Amicat’s.

“Tivemos muitos resgates marcantes, mas o Fabinho foi o primeiro resgate da Amicat’s. Alguém o espancou por estar com sarna e o jogou em um bueiro. Hoje, ele é nosso mascote”, explica.

ONG Amicat's
ONG Amicat’s (Divulgação)

Criada em 2017, a Amicat’s nasceu com o objetivo de cuidar e proteger felinos em situação de abandono, maus-tratos ou que se encontram em risco. Atualmente, a ONG cuida de 450 animais, com 400 deles abrigados e o restante em lares temporários.

“Devido ao alto número de gatos abrigados e as limitações, os resgates não são frequentes. Mas essa abordagem busca garantir uma boa qualidade de vida e bem-estar para os gatos que são resgatados”, explica a fundadora da Amicat’s.

Lili

Lili e Thor
Lili e Thor (Arquivo pessoal)

Por trás de todo resgate existe uma história de maus-tratos e abandono. Para Kelly Macedo, 62, fundadora da ONG Cão Feliz, o resgate mais marcante foi o de Lili, poodle que passaria por eutanásia por ser cega.

“Lili vivia em um condomínio, lá ela era hostilizada o tempo todo. Diziam que ela era fedida, que estava com o olho podre por estar cega”, relembra a protetora.

Kelly relembra que Lili chegou até ela por meio de uma amiga, como a ONG já estava lotada a protetora se comprometeu a auxiliar apenas com a consulta veterinária. Tudo mudou no momento em que ela viu Lili pela primeira vez.

“Quando conheci Lili tinha acabado de sair da quimioterapia, estava em tratamento de câncer. Recentemente havia perdido uma cachorra ceguinha e estava muito abalada, mas na hora que ela chegou aqui, não aguentei, tive que ficar com ela”.

Lili passou três anos ao lado de Kelly. Embora tenha partido, a protetora sente que cumpriu sua missão ao proporcionar amor e carinho em seus últimos anos de vida.

‘Vivo por esses animais’

ONG Cão Feliz - Nathalia Alcântara
Cuidadores da ONG Cão Feliz (Nathalia Alcântara, Midiamax)

Com o objetivo de homenagear e dar continuidade ao trabalho da amiga Sueli, que faleceu devido a problemas cardíacos, Kelly Macedo fundou, em 2013, a Associação de Proteção Animal Sueli Craveiro – ONG Cão Feliz. Hoje a sede da ONG abriga 153 cães e conta com outros 87 em lares temporários.

“Sueli me envolveu em resgates e comecei a ajudá-la. Quando percebi, não conseguia mais parar de resgatar animais. Ela faleceu em 18 de janeiro de 2013 e, em 17 de maio do mesmo ano, fundamos a Cão Feliz”.

Quando a ONG recebe um pedido de resgate, ela recolhe o animal e o encaminha para uma clínica veterinária, onde passa por uma avaliação médica antes de ser entregue a um lar temporário. Conforme Kelly, voluntários disponibilizam esses lares e cuidam dos animais até que sejam adotados definitivamente.

Kelly relata que, desde o início da pandemia de Covid-19, houve uma queda significativa no número de doações, tornando inviável para a ONG arcar com os custos de 40 quilos de ração e 20 fraldas utilizadas diariamente pelos animais paraplégicos. Por isso, a ONG suspendeu os resgates.

“Quem vê de fora acha lindo, mas nosso trabalho é cruel. Nós que somos protetores não temos vida, é um trabalho de dedicação 24 horas. Além disso, tenho vários animais portadores de doenças ou deficientes, o que torna tudo mais caro”, desabafa.

Jake

Jake
Jake (Arquivo pessoal)

A Leishmaniose Visceral figura entre as principais razões pelas quais os tutores cometem o crime de abandono. Campo Grande está situada em uma área endêmica para a doença, somente em 2022 o Centro de Controle de Zoonoses registrou 1.670 animais infectados com Leishmaniose.

Nesse contexto, surgem histórias como a do cão-salsicha, Jake, que, apesar de ter a possibilidade de tratamento, foi sentenciado à eutanásia. Andréa Costa da Silva, diretora da ONG Abrigo dos Bichos e responsável pelo resgate de Jake, relembra que o tutor abandonou o cão quando ele tinha apenas um ano.

“Jake foi colocado para adoção por uma protetora independente em abril de 2014, em um Pet Shop onde o tutor o levava para tomar banho. Quando soube que ele tinha contraído leishmaniose, ele disse que iria sacrificá-lo, pois não queria fazer o tratamento. Um funcionário se compadeceu do bichinho e procurou essa protetora que o colocou para adoção”, explica.

Com a possibilidade da morte iminente de Jake, a protetora divulgou a adoção nas redes sociais, e a publicação chegou até o marido de Andréa. Juntos, decidiram adotá-lo.

“Graças a Deus, meu falecido marido viu a postagem e resolvemos adotá-lo. Fizemos o tratamento contra a Leishmaniose, em 5 anos ele negativou para a doença. Hoje, Jake está com 11 anos, é um cachorrinho muito simpático e saudável, porque foi resgatado por amor e continua recebendo carinho e cuidados necessários para seu bem-estar”, conta.

23 anos dedicados aos animais

Animais de rua
Animais de rua (Ana Laura Menegat, Midiamax)

Pioneiro em Mato Grosso do Sul, o Abrigo dos Bichos foi fundado pela médica veterinária Maria Lúcia Metello em 2001. No início, a organização abrigava cerca de 120 animais, entre cães e gatos, em uma chácara, contudo, em 2008, Maria Lúcia se desfez do abrigo, e os animais foram distribuídos em lares temporários.

Como a ONG não possui espaço físico de acolhimento, Maria explica que os resgates estão paralisados, e até recentemente o Abrigo prestava atendimento emergencial em clínicas veterinárias para animais abandonados nas ruas, sobretudo os atropelados sem tutores identificados. No entanto, a falta de assistência impossibilitou os trabalhos desenvolvidos pela ONG.

“Nós temos socorrido muitos animais, mas a ajuda não tem sido satisfatória. Não recebemos ajuda oficial, via prefeitura ou governo, por isso nos vimos obrigados a suspender essa assistência, infelizmente. Por ora, intermediamos para que os animais resgatados por terceiros sejam atendidos via tabela social na clínica parceira”.

Para a protetora, o resgate mais marcante foi o de Xuxinha, uma poodle de três anos que chegou até o Abrigo após ser vítima de maus-tratos e violência sexual.

“Nos pediram ajuda para eutanásia, quando ela chegou, estava totalmente debilitada, dentes podres, um olho comido por larvas e, pior, foi constatado abuso sexual. Ela foi socorrida, registramos o B.O e o caso foi entregue à justiça. Após longa recuperação em clínica veterinária, a cadelinha foi adotada e batizada de Lolita”, relembra.

Atualmente, a ONG abriga cinco dos 40 cães apreendidos pela Decat na MS-040.

Em meio à desassistência, ONGs lutam para se manterem abertas

ONG Cão Feliz - Nathalia Alcântara
Cão amputado (Nathalia Alcântara, Midiamax)

As ONGs de proteção e resgate desempenham um papel crucial não apenas no bem-estar animal, mas também na saúde pública das cidades, contribuindo para o combate e controle de zoonoses. No entanto, diante da falta de assistência do poder público, muitas delas enfrentam dificuldades para sobreviver.

Segundo a presidente da AmiCat’s, embora haja diálogo entre o Município, o Estado, OSC (Organizações da Sociedade Civil) e protetores, os esforços voltados para a causa animal são de extrema importância, uma vez que as ações do Poder Público muitas vezes são insuficientes para atender às necessidades apresentadas.

Ana ressalta que ainda há muitas lacunas a serem preenchidas, especialmente no que diz respeito à proteção de gatos, devido ao preconceito enraizado contra esses animais.

“É fundamental que Campo Grande possua um espaço dedicado a consultas, exames, internações, cirurgias e tratamentos gratuitos para animais. Além disso, é essencial fornecer vacinação completa para os animais assistidos pelas OSCs e protetores”, afirma.

ONG Cão Feliz - Nathalia Alcântara
Animais em situação de rua (Nathalia Alcântara, Midiamax)

A falta de políticas públicas de assistência também afeta diretamente o trabalho desenvolvido na ONG Cão Feliz. Kelly explica que a prefeitura subsidia apenas a vacina contra a raiva, todas as outras despesas estão sob responsabilidade dos próprios protetores.

“Os animais necessitam de diversas outras vacinas e precisam ser vermifugados. Com isso, acabamos acumulando dívidas. No momento, estou com uma dívida de R$ 3 mil devido às vacinas”, explica.

‘O governo precisa desempenhar seu papel’

Segundo a fundadora do Abrigo dos Bichos, Maria Metello, há uma falta de aplicação e fiscalização das leis existentes no país, com a devida punição para aqueles que cometem crimes contra os animais.

“Desenvolvemos um trabalho de formiguinha para conscientizar o poder público a cumprir sua obrigação estipulada na Constituição Federal. Além disso, o governo precisa desempenhar seu papel ou, ao menos, apoiar aqueles que o substituem – as ONGs e os protetores independentes – nessa tarefa de tentar salvar as vidas dos animais”, enfatiza.

Apesar da desassistência, Maria ressalta que a atual gestão da Subea tem ouvido as ONGs. Após reuniões com Diretor do Departamento de Bem-Estar Animal da Prefeitura de Campinas (SP), foram debatidas ações efetivas de controle animal com sucesso comprovado na cidade paulista.

Por sua vez, a protetora afirma que o governo ainda não tomou medidas efetivas, limitando-se a realizar ‘cãominhadas’, feiras de adoção, viagens e eventos festivos.

“Há a intenção de investir em uma cara caravana específica de castração, que não trará resultados desejáveis, pois é realizada de forma isolada, sem outras ações importantes de controle animal, como as realizadas em Campinas”, diz.

Denuncie

Como denunciar? A orientação é que moradores que queiram denunciar maus-tratos procurem o município para denúncias. Em Campo Grande, o telefone é o (67) 99984-5013. Quem não souber o telefone ou tiver dificuldade de falar com a polícia militar Ambiental também pode acionar o telefone 190.

Quem comete o crime de maus-tratos está sujeito a pena de três meses a um ano de detenção para qualquer tipo de bicho, a exceção para gatos e cachorros, para os quais a pena é maior, de dois a cinco anos de reclusão.

Além da penalidade criminal, as autoridades administrativas multarão o infrator em um valor que pode variar de R$ 500 a R$ 3 mil por animal.

Além disso, o CCZ é responsável por fazer o recolhimento de animais que estejam soltos em vias públicas, que estejam doentes ou apresentem comportamento agressivo, sendo em ambos os casos considerados risco à população. A equipe de médicos veterinários avalia o animal recolhido, administra medicação contra verminoses e outros parasitas, e coloca-o para adoção.

No caso de animais portadores de doenças e/ou ferimentos considerados graves, e/ou clinicamente comprometidos, caberá ao médico veterinário do órgão municipal responsável pelo controle de zoonoses, após avaliação e emissão de parecer técnico, decidir o seu destino.

De acordo com o CCZ, é recomendado que a pessoa acione imediatamente o Centro de Zoonoses caso se depare com um animal nessas condições, para que o recolhimento do animal seja realizado. O contato é 3313-5000 ou 3313-5001.

Como ajudar?

Amicat’s

Quem tiver interesse em fazer doações e contribuir com o trabalho da Amicat’s, pode realizar doações por meio do Pix: (27806981/0001-15 – Associação Amigos dos Gatos) ou doação recorrente pelo cartão de crédito. A ONG também conta com parcerias tais como com a Clínica Veterinária Bourgelat, Petz, Outpet, Pronto Dog & Cat e Maranatha Pet Shop como ponto de coleta de doações.

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Instagram: https://www.instagram.com/ongamicats/.

Cão Feliz

Para ajudar a ONG Cão Feliz basta entrar em contato pelo telefone (67) 99902-1903. As doações podem ser encaminhadas via Pix, além disso, a ONG aceita doações de ração e fraldas para os animais.

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Instagram: https://www.instagram.com/caofeliz.ong/.

Abrigo dos Bichos

As doações ao Abrigo dos Bichos podem colaborar doando, por meio do site ou pela conta no Banco do Brasil, no CNPJ da ONG, agência 5783-5, conta 41599-5. CNPJ 05.108.286/0001-47.

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Instagram: https://www.instagram.com/ongabrigodosbichos/.

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